O CONTEÚDO DO PENTECOSTE

O Pentecoste veio porque uma congregação de 120 pessoas estava unida, coesa, unânime, perseverando na busca do mesmo ideal (At 1.14; 2.1). Havia unidade de propósitos. Hoje há ajuntamento, mas pouca comunhão; há orações, mas pouca concordância; muita coreografia, mas pouco quebrantamento; muito movimento, mas pouca adoração; muita agitação, mas pouco louvor; muita verborragia, mas pouca unção; muitos buscam o derramamento do Espírito, mas ou¬tros puxam para trás.
Quero abordar o conteúdo do Pentecoste sob dois aspectos:

1. Experiência pessoal de enchimento do Espírito Santo
Aqueles discípulos já eram regenerados e salvos. Por três ve-zes, Jesus deixou isso muito claro (Jo 13.10; 15.3; 17.12). Portanto, eles já possuíam o Espírito Santo, pois, "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Rm 8.9). Jesus disse a Nicodemos que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus (Jo 3.5). Além disso, Jesus já havia soprado sobre os onze, dizendo-lhes: "Recebei o Espírito Santo" (Jo 20.22). Mas, a despeito de já serem salvos, terem o selo do Espírito e receberem o sopro do Espírito, eles ainda não estavam cheios do Espírito. Uma coisa é ter o Espírito residente; outra é tê-lo presidente. Uma coisa é ser habitado pelo Espírito; outra é ser cheio do Espírito. Você, que tem o Espírito, já está cheio dele? Sua vida é controlada por ele? O fruto do Espírito pode ser visto na sua vida? A unção do Espírito está sobre a sua cabe¬ça? O poder do Espírito está sobre você? Quando você abre os lábios, a Palavra de Deus é verdade na sua boca? Quando o missionário presbiteriano John Hyde estava indo para a índia, recebeu um tele¬grama a bordo do navio. Abriu-o sofregamente. Havia uma pergunta lacônica e perturbadora: "John Hyde, você está cheio do Espírito San¬to?". Ele ficou irritado com a petulância e audácia da pergunta. Amarrotou o telegrama, enfiou-o no bolso e tentou escapar da intri¬gante pergunta. Procurou justificar para si mesmo que a pergunta não tinha razão de ser, visto que ele estava indo para um campo missioná¬rio, abrindo mão de tantas regalias, a fim de embrenhar-se em terras longínquas e obscuras. Todavia, ao entrar em seu aposento, o dedo de Deus o tocou e a pergunta começou a arder em seu coração: "John Hyde, você está cheio do Espírito Santo?". Foi então que ele caiu de joelhos, em lágrimas, e clamou a Deus por um derramamento do Es¬pírito em sua vida. Ele foi profundamente influenciado por esta ora¬ção. Experimentou algo especial da parte de Deus. Ao chegar à índia, em apenas três anos viu mais de mil pessoas rendendo-se a Cristo através do seu ministério.
A experiência do enchimento do Espírito Santo é pessoal (At 2.3,4). O Espírito Santo desce sobre cada um individualmente. Cada um vive a sua própria experiência. Ninguém precisa pedir, como as virgens néscias, azeite emprestado. Todos estão cheios do Espírito!
O Espírito veio em forma de vento para mostrar a soberania, a liberdade e a inescrutabilidade do Espírito. O Espírito, assim como o vento, sopra onde quer, da forma que quer, em quem quer. Ninguém pode cercar ou deter o vento. Ele é misterioso. Ninguém sabe donde ele vem nem para onde vai. Seu curso é livre e soberano. Deus não se submete à agenda dos homens. Ele não se deixa domesticar. Ele não pode ser pres¬sionado. Ele é Deus. Está no trono e faz todas as coisas conforme o con¬selho da sua vontade.
O Espírito veio em forma de línguas de fogo. O fogo ilumina, purifica, aquece e alastra. Jesus veio para lançar fogo sobre a terra. Hoje a igreja, via de regra, está fria. Parece uma geladeira a conservar o seu religiosismo intacto, e não uma fogueira a inflamar os corações. Muitos crentes parecem mais barras de gelo do que brasas vivas.
Benjamim Franklin gostava de ouvir George Whitefield porque po¬dia vê-lo arder diante dos seus olhos. Deus disse ao profeta Jeremias: "Eis que eu converterei em fogo as minhas palavras na tua boca".
Mas a tendência do fogo é apagar. Onde não há combustível, o fogo se apaga. É por isso que, cinco vezes, em Levítico capítulo 6, Deus instruiu a que não se deixe o fogo apagar sobre o altar. Deus acende o fogo, mas nós devemos mantê-lo aceso (II Cr 7.11). O após¬tolo Paulo, nessa mesma direção, exorta o seu filho na fé, Timóteo, a reavivar o seu dom (II Tm 1.6). A palavra reavivar refere-se ao uso de foles para fazer com que volte a chamejar o fogo prestes a apagar. O general William Both, fundador do Exército da Salvação, insistia sempre com o seu povo: "A tendência do fogo é apagar-se; vigiem o fogo no altar do seu coração".
Precisamos de uma igreja inflamada. Quando a igreja perde o fogo do Espírito, os pecadores perecem no fogo do inferno. Só uma igreja aquecida pelo fogo de Deus pode arrebatar as pessoas do fogo da condenação.
Não basta arrumar a lenha e a oferta no holocausto. É preciso fogo e, quando o fogo cai, o povo cai de joelhos gritando: só o Senhor é Deus, só o Senhor é Deus. Precisamos da gloriosa experiência de enchimento do Espírito que nos faz arder de amor por Deus. Precisa¬mos do enchimento do Espírito para viver de modo digno de Deus, com gratidão, louvor e submissão.
Quando os discípulos ficaram cheios do Espírito, começaram a falar das grandezas de Deus (At 2.4,11). Todos começaram a glorificar a Deus. Não havia espaço para palavras torpes e maliciosas. Aca¬baram-se as intrigas. Cessaram as acusações. Toda a visão pessimista acabou. Eles estavam cheios de entusiasmo e vibração, falando das grandezas de Deus. Precisamos de um Pentecoste que tire da igreja toda murmuração, toda palavra e atitude de derrota. Há muitos na igreja que só vêem as coisas através de lentes embaçadas. São pesso¬as que passam o tempo todo reclamando da vida, da família que têm, da igreja que freqüentam. São pessoas que jogam contra o patrimônio, que puxam para baixo, que remam no sentido oposto, que são sempre do contra. Essas pessoas são arautos do caos, profetas do desastre, embaixadores do pessimismo. Precisamos de um Pentecoste que tire a igreja do pântano do desânimo, da cova da murmuração e do calabouço do negativismo. Precisamos abrir a boca para falar das grande¬zas de Deus. Precisamos profetizar as possibilidades infinitas de Deus. Precisamos abençoar as pessoas e engrandecer o nome excelso do Senhor. Precisamos ser um povo mais ousado, mais otimista e mais entusiasmado!

2. Experiência pessoal de revestimento de poder - Lucas 24.49; Atos 1.5,8
Não há cristianismo sem poder. O Evangelho que abraçamos é o poder de Deus para todo o que crê (Rm 1.16). O Espírito Santo que recebemos é Espírito de poder (II Tm 1.7). O Reino de Deus, que está dentro de nós, não consiste em palavras, mas em poder (Rm 4.20). A pregação da Palavra precisa ser feita com poder (I Ts 1.5; I Co 2.4).
O próprio Jesus, mesmo sendo Filho de Deus, não abriu mão desse poder. Quando foi batizado no rio Jordão, o céu se abriu, o Pai falou, e o Espírito Santo desceu sobre Ele, revestindo-o de poder para o ministério (Lc 3.21,22). Dali, Jesus foi para o deserto, conduzido pelo Espírito, cheio do Espírito, onde jejuou e orou durante 40 dias. Ali no deserto o diabo usou todo o seu arsenal para tentar a Jesus. Lançou sobre ele todos os seus torpedos mortíferos. Mas foi fragorosamente derrotado (Lc4.1-11). Do deserto, Jesus saiu vitorio¬so e, cheio do Espírito, retornou à Galiléia (Lc 4.14). Entrou na sina¬goga de Nazaré e tomou o livro de Isaías nas mãos, para revelar ao povo que o Espírito de Deus estava sobre ele, ungindo-o para pregar, curar e libertar (Lc 4.17,18). Toda a vida de Jesus e todo o seu minis¬tério aconteceram sob a unção do Espírito Santo (At 10.38). O Espírito Santo esteve presente até mesmo na sua morte (Hb 9.14) e na sua ressurrei¬ção (Rm 8.11).
Se Jesus, sendo Deus, não prescindiu do poder do Espírito, tampouco nós podemos fazê-lo. Não basta apenas conhecer as Escritu¬ras, é preciso experimentar o poder de Deus (Mt 22.29). Não basta ape¬nas ter a cabeça cheia de luz, é preciso ter o coração cheio de fogo. Não basta apenas ter boa teologia, é preciso ter unção do Espírito. Não basta apenas ter boa organização, é preciso ter óleo na engrenagem. A igre¬ja sem a unção e o poder do Espírito é como um vale de ossos secos.
Sem o poder do Espírito, poderemos ter igrejas grandes, mas não igre¬jas vivas. Sem o poder do Espírito, poderemos ter grandes templos, mas não congregações santas. Sem o poder do Espírito, poderemos ter um culto solene e pomposo, mas não convicção de pecado e sede de Deus. Sem o poder do Espírito, poderemos realizar grandes obras, mas não estender as estacas do Reino de Deus. Jesus foi categórico ao determinar que os discípulos não deveriam aventurar-se no ministé¬rio antes de serem revestidos com o poder do Espírito (Lc 24.49). Eles não estariam aptos para os desafios do testemunho sem o poder do Espírito (At 1.5,8).
Mas precisamos agora perguntar: Poder para quê? Há muita gente buscando poder com motivações erradas. Querem poder se auto-promoverem. Querem poder para se tornarem famosos. Querem poder para receberem os aplausos dos homens. Querem poder para se tornarem grandes e ricos, influentes e respeitados. Não buscam a gló¬ria de Deus, estão atrás de prestígio e recompensas.
Quando olhamos para o livro de Atos, percebemos as razões pelas quais Jesus evidencia a necessidade que a igreja tem de poder:

Poder para sacudir o jugo do medo (João 20.19; II Timóteo 1.7)
Há muitos hoje que vivem no calabouço do medo, como os discípulos antes do Pentecoste, trancados, encavernados, paralisados. É gente que tem medo de viver, medo de morrer, medo de testemu¬nhar, medo de casar e medo de descasar. Medo de ficar doente e medo de ir ao médico. Medo de entrar na faculdade e medo de bater à porta de um emprego. Medo de ficar desempregado e medo de se aposen¬tar. Medo de ficar sozinho e medo de compartilhar a vida com al¬guém. Medo do real e medo do irreal. Medo de encarar a vida de frente e medo de enfrentar a eternidade. Medo de assaltos e medo da polícia. Medo de viajar e medo de ficar em casa. Medo de perder a popularidade e medo de ser autêntico. Sim, as pessoas vivem hoje cheias de fobias. Precisamos de poder do céu para vencer nossos medos e traumas. Só através do poder do Espírito podemos sair de trás das nossas portas trancadas. Só recebendo o Espírito de poder, baniremos a covardia e o medo que nos assombram.

Poder para tirar os olhos da especulação para a ação
(Atos 1.8)
Quando Jesus falou aos discípulos sobre o batismo com o Espírito e a promessa do Pai pela qual deveriam aguardar, eles logo passaram a cogitar sobre tempos e épocas, ou seja, sobre o kronos e o kairos. Eles começaram a entrar no campo da especu¬lação escatológica. Acharam que Jesus estava falando de um tem¬po em que o domínio de Roma seria subjugado pelo poder políti¬co de Jesus. Entretanto, Jesus muda o rumo dessas expectativas e evidencia com diáfana clareza que eles receberiam poder não para fazer profundas lucubrações ou incursões no campo da es-peculação teológica, mas para agir, para colocar a mão no arado e para fazer a obra. Muitas vezes, a igreja se reúne para discutir opiniões, mas não age. Faz todo o tipo de treinamento, mas não sai a campo. Há crentes que freqüentam todos os congressos de reciclagem e aprendem todos os métodos de evangelismo, mas nunca saíram de casa para evangelizar. São capazes de andar mil quilômetros para ir a um congresso de evangelização, são capa¬zes de sair de casa para o templo mil vezes, mas são incapazes de atravessar a rua e falar de Jesus para um vizinho. As pessoas estão buscando poder para o seu próprio deleite, para o seu pró¬prio conforto, para a exaltação do seu próprio nome. Por isso, vemos muito religiosismo, mas pouca vida; muita ortodoxia, mas pouco poder; muita discussão, mas pouco trabalho; muito baru¬lho, mas pouco resultado.
Com tristeza vemos muitos na igreja com a cabeça enorme e o corpo raquítico. Pessoas que estudam, pesquisam, mergulham nas águas mais profundas do saber, tornam-se adestradas no conhecimento, mas inaptas no trabalho. Sabem, mas não fazem. Passam a vida se aquecendo, se preparando, mas nunca entram em campo. Conhecem a Bíblia de capa a capa, mas nunca compartilham o seu conteúdo com outras pessoas. São mestres afiados para discutir todas as doutrinas, para diagnosticar todas as novidades emergentes no mercado da fé, para vigiar como guardiões os depósitos sagrados; mas são verdadei¬ros sarcofagos, fechados hermeticamente como um túmulo; deles não transpira a vida de Deus, deles não se ouve a voz de Deus, eles não sabem conjugar o verbo trabalhar, porque na escola da vida só fize¬ram conjecturas e especulações, e nunca agiram na força do poder de Deus.

Poder para morrer (Atos 1.8)
Jesus falou que precisamos de poder não apenas para viver, mas também para morrer. A palavra "testemunhas" em Atos 1.8 vem do grego martiria, de onde se origina a nossa palavra "mártir". Precisa¬mos de poder para morrer, pois quem não está preparado para morrer, não está preparado para viver. Ser cristão no tempo dos apóstolos não era símbolo de prestígio político, mas de perseguição, espólio, prisão e morte. Declarar-se cristão era algo arriscado e perigoso. Podia sig¬nificar abandono, cadeia e morte. Muitos cristãos foram presos, tor¬turados, saqueados e mortos com requintes de crueldade por causa da sua fé. Muitos soldados de Cristo tombaram no campo de batalha e sofreram doloroso martírio por causa da sua fidelidade a Cristo. Mui¬tos perderam a família, os bens e a própria vida, sendo jogados nas arenas, enrolados em peles de animais, mordidos e dilacerados pelas dentadas dos cães; outros foram pisoteados e rasgados pelos touros enfurecidos. Não poucos foram destroçados pelos esfaimados leões da Líbia ou traspassados pelas espadas dos gladiadores. Miríades de crentes morreram queimados, outros crucificados, outros afogados, outros estrangulados e decapitados por causa da sua fé em Cristo. Desde Estêvão, o protomártir do cristianismo, Tiago, Paulo, Policarpo, a viúva Felicidade, a jovem senhora Perpétua, a escrava Blandina e milhares de outros, como John Huss, Jerônimo Savonarola, comple¬tam a galeria dos heróis da fé que, por amor a Deus, fidelidade a Jesus e compromisso com o Evangelho, selaram com o próprio sangue o testemunho da cruz!
Sem o poder do Espírito, tornamo-nos covardes como Pedro na casa do sumo sacerdote Anás. Sem o poder do Espírito, perdemos a intrepidez de falar do Evangelho diante das ameaças do mundo. Mas, quando somos revestidos com esse poder, força nenhuma nos detém, os açoites não nos intimidam, as prisões não nos amordaçam nem a morte nos abala (At 4.18-21). Foi esse poder que sustentou Paulo como um arauto na prisão até a morte. Foi esse poder que sustentou
Estêvão diante do martírio. Foi esse poder que capacitou John Huss a enfrentar a fogueira com serenidade. Foi esse poder que encorajou Lutero a ir a Worms e dar firme testemunho da sua fé. Precisamos poder para viver com Jesus e para morrer para Jesus.
Uma das coisas que marcou profundamente a minha vida foi visitar o museu dos mártires, em Seul, na Coréia do Sul. A igreja evangélica coreana cresceu num solo regado pelo sangue dos márti¬res. Milhares de crentes foram castigados até a morte, com requintes de crueldade, na época da ocupação japonesa. Centenas de pastores foram decapitados às margens do rio Ran. Mais tarde, na fratricida guerra contra a Coréia do Norte, outras centenas de crentes morreram por sua fidelidade a Cristo. Nesse museu, vimos numa enorme sala quadros singelamente emoldurados com as fotografias de centenas de mártires. Em cada quadro havia um breve histórico com o relato da vida, das obras, do ministério e sobretudo da maneira cruel com que cada pessoa foi torturada e morta pela sua fé. Ali naquela sala chorei ao ver que muitos daqueles mártires morreram sem ver o gran¬de avivamento que Deus enviou sobre a Coréia do Sul. Deus honra o sangue dos mártires. O sangue dos mártires, como dizia Tertuliano, é o adubo para a sementeira do Evangelho. Depois de observar atenta¬mente todos aqueles quadros, já na saída da sala, aproximei-me do último quadro. A moldura era a mesma, mas não havia fotografia. Quando fiquei de frente para ele, havia no lugar da fotografia um espelho. Vi o meu próprio rosto e, embaixo, uma frase lapidar: "Você pode ser o próximo mártir". As lágrimas rolaram em meu rosto. Re¬conheci que precisava ser revestido com o poder do Espírito para ser um mártir de Jesus!

Poder para viver em santidade (Atos 3.4)
Pedro e João disseram ao paralítico em Jerusalém: "Olha para nós..." (At 3.4). Esta é uma afirmação ousada, audaciosa. Só quem anda com Jesus, quem é revestido com o poder do Espírito, pode ter tamanha intrepidez. Hoje assistimos a um hiato, um abismo, um di¬vórcio entre o que as pessoas falam e o que elas fazem. Vemos gente santarrona blasonando belas palavras para a igreja e vivendo em prá¬ticas pecaminosas abomináveis no secreto. Vemos pastores que cobram de seus rebanhos uma vida santa e vivem sua intimidade regaladamente no pecado. Vemos líderes que tratam a igreja com rigor e dureza, mas cultivam a devassidão moral na vida privada. Vemos obreiros zelosos, atentos aos mínimos detalhes da lei, mas condes¬cendentes com o pecado na vida particular.
É alarmante perceber o grande surto de decadência moral entre os líderes evangélicos nesses dias. Centenas de pastores têm capitula¬do e naufragado no mar agitado da paixão sexual. A juventude evan¬gélica tem sido achatada pela avalancha dos novos conceitos morais, que desconhecem limites e odeiam toda a sorte de absolutos éticos. Muitas vezes, tentamos driblar a nossa própria consciência dizendo às pessoas: "Vocês não podem olhar para o pastor, nem para o presbítero, nem para o diácono, nem para as mulheres da igreja, mui¬to menos para os jovens. Vocês precisam olhar só para Jesus". Não queremos ser modelos. Não queremos ser luz. Não queremos pagar o preço de ser santos. Paulo disse à igreja de Corinto: "Sede meus imi¬tadores, como também eu sou de Cristo" (I Co 11.1).
A igreja precisa pregar não apenas aos ouvidos, mas também aos olhos. Precisa não apenas proferir belos discursos, mas também viver em santidade. Não basta que as pessoas ouçam de nós belos sermões, elas precisam ver vida santa. O diácono Filipe, ao chegar à cidade de Samaria, viu ali um grande avivamento, e as multidões atendiam, unânimes, às coisas que ele dizia. Mas por quê? Qual era a razão da eficácia do ministério de Filipe? É que Filipe falava e fazia. Ele pregava e demonstrava. Ele pregava aos ouvidos e também aos olhos (At 8.6). Quando João Batista enviou seus emissários para in¬terrogar a Jesus se ele era de fato o Messias, o Mestre mandou lhe dizer: "... Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evan¬gelho" (Mt 11.4,5). Quando o paralítico abordou a Pedro e João na entrada do templo, eles não fizeram um discurso, mas disseram: olha para nós (At 3.4). A vida da igreja precisa falar mais alto que o seu discurso. Onde não há vida, a palavra é desacreditada, o discurso é vazio e inócuo. Sem santidade não existe pregação eficaz. Sem santi¬dade não existe ministério ungido. Sem santidade não podemos ser boca de Deus (Jr 15.19). Sem santidade o bastão profético em nossas mãos não tem nenhum valor, como aconteceu no caso de Geazi (II Rs 4.31). A Palavra de Deus é verdade em nossos lábios, quando vive¬mos na presença de Deus e fazemos a obra de Deus no poder do seu Espírito (I Rs 17.1,24).
A igreja hoje, mais do que nunca, está precisando de vestes alvas, de vida limpa, de mãos purificadas, de pés lavados, de coração íntegro. O mundo tem influenciado mais a igreja do que a igreja ao mundo. Porque a igreja tem deixado de ser luz no mundo, o mundo tem entrado dentro da igreja. Em vez de a igreja convocar o mundo ao arrependimento, é o mundo que tem proclamado os pecados da igreja. A mídia veicula mais os escândalos da igreja do que suas vir¬tudes. A igreja tem amado o mundo, sido amiga do mundo e se con¬formado a ele. Os cristãos estão-se imiscuindo nas mesmas práticas reprováveis daqueles que não conhecem a Deus. A ética de muitos cristãos é relativa e situacional, à semelhança das pessoas que não conhecem os absolutos da Palavra de Deus. Os estudantes cristãos, não poucas vezes, utilizam o expediente imoral da cola para auferir boas notas nas provas. Os empresários cristãos nem sempre são trans¬parentes e éticos em suas transações comerciais. Suas empresas não suportariam uma devassa como a que ocorreu na vida do profeta Daniel. Os jovens cristãos estão-se entregando à sensualidade des¬controlada no namoro, à semelhança dos gentios que não conhecem a Deus (I Ts 4.3-8). O vestuário indecoroso, sumário, apelativo e sen¬sual, ditado pela moda, nem sempre é evitado pelas mulheres e jo¬vens cristãs. A vida sexual do povo de Deus tem sido contaminada pelo lixo dos filmes pornográficos que como coisas abomináveis en¬tram nos lares cristãos (Dt 7.26). As famílias evangélicas estão mer¬gulhadas nas mesmas crises conjugais que as não cristãs. Os casa¬mentos estão sendo desfeitos nas barras dos tribunais por motivos fúteis e não por razões bíblicas que justifiquem o divórcio e um novo casamento. Assim, estamos abrindo as portas para verdadeiros adul¬térios institucionalizados (Mt 19.9). A igreja não pode estar bem se a vida privada do povo está em crise. Não adianta existir ajuntamento solene se a vida particular das pessoas que se reúnem está em deca¬dência (Is 1.15). Deus não aceita o culto da igreja, ainda que animado e alegre, se esse mesmo povo está vivendo em pecado (Am 5.23). E inútil acender o fogo do altar e abrir as portas da igreja se os adoradores não levam Deus a sério (MI 1.10). Quando Deus rejeita o adorador, a oferta também não pode ser aceita (Gn 4.3-7). Por outro lado, a qua¬lidade da oferta é um reflexo da vida do adorador (Ml 1.9). Deus busca adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.24). Deus quer verdade no íntimo (SI 51.6), espírito quebrantado e cora¬ção compungido e contrito (SI 51.17). Estamos precisando de um Pentecoste que desperte a igreja para a busca da santidade. As pesso¬as estão correndo atrás de bênçãos. A palavra de ordem hoje é que o homem merece ser feliz. Mas o projeto de Deus é que sejamos santos. Sem santidade ninguém verá a Deus (Hb 12.14). O fruto do justo é árvore de vida (Pv 11.30), mas o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). O caminho da santidade conduz à glória, mas as veredas do pecado conduzem ao inferno.

Poder para perdoar (Atos 1.8)
Havia uma rivalidade histórica entre judeus e samaritanos. Inimi¬gos irreconciliáveis, eles não se toleravam. Os judeus consideravam os samaritanos combustível para o fogo do inferno. Se uma jovem judia se casasse com um jovem samaritano, a família oficiava simbolicamente o seu funeral. Um judeu não podia comer pão na casa de um samaritano, pois o pão do samaritano era considerado imundo. A hostilidade entre eles era profunda. Pelo fato de Jesus não ter sido bem recebido em Samaria, Tiago e João, os filhos do trovão, quiseram que fogo do céu caísse sobre a cidade para destruir os seus desafetos. A mulher samaritana fez questão de relembrar a Jesus que um judeu não deve pedir um favor a um samaritano, muito menos um samaritano ajudar a um judeu. Quan¬do Neemias, após os 70 anos de cativeiro babilônico, retornou a Jerusa¬lém para reconstruir os muros da cidade, os samaritanos tentaram de diversas formas impedir a sua reconstrução. Era o ódio que aflorava. Eram os ranços de um passado mal resolvido. As feridas abertas ainda não haviam sido curadas. Os ressentimentos históricos fervilhavam como as lavas de um vulcão em erupção.
Os samaritanos eram judeus mestiços, parentes próximos do mesmo sangue. Foram o produto de um caldeamento de raças, levado a efeito pelo rei da Assíria, Sargão II, que, ao conquistar Israel em 722 A. C, levou o povo de Israel para o cativeiro, e os demais que ficaram na terra foram misturados com outros povos que o rei estrate¬gicamente enviou para a região, a fim de enfraquecer o zelo naciona¬lista do povo. Dessa mistura racial, surgiu o povo samaritano. Com isso, aprendemos que, quanto mais fortes e estreitos são os laços, mais profunda é a ferida quando se instala uma crise de relaciona¬mento. A decepção torna-se mais amarga quando somos traídos por alguém que outrora nos devotou fidelidade.
Jesus já havia quebrado a barreira da inimizade passando por Samaria na itinerância do seu ministério. Ele rompeu com todos os preconceitos que separavam esses dois povos pelo muro da inimiza¬de. Agora, ao fazer a promessa do derramamento do Espírito, diz que a igreja receberia poder para testemunhar também em Samaria. Tal¬vez fosse o último lugar a que um judeu gostaria de ir. Talvez fosse a última escolha para uma empreitada missionária. Mas, onde chega o Pentecoste, as barreiras do ódio são desfeitas. Onde o Evangelho pre¬valece, acabam-se as guerras frias, curam-se as feridas, restauram-se as relações quebradas e estabelece-se a comunhão. A ordem de Jesus não é para incendiar a Samaria, como antes queriam Tiago e João, mas para testemunhar a ela a mensagem suprema do amor de Deus e da salvação em Cristo. Só recebendo poder do Espírito, podemos perdoar. Precisamos de poder para amar como Jesus amou. Precisamos de poder do Espírito para não deixar que a peçonha venenosa do res¬sentimento azede a nossa vida. Precisamos do Pentecoste para amar¬mos a quem nos odeia, para levarmos vida a quem deseja a nossa morte, para abençoarmos a quem nos amaldiçoa. Precisamos do re¬vestimento de poder para transformarmos os nossos inimigos em amigos, para conquistarmos as pessoas que nos ferem pela força irresistível do amor incondicional.
Foi esse poder que capacitou os apóstolos a sofrer açoites e prisões e até mesmo o martírio sem perder a doçura da vida. Como flores, ao serem pisados, exalavam o perfume de Jesus. Como metais nobres, ao serem lançados na fornalha da perseguição, saíam mais puros, mais alegres e mais exultantes. Como diamantes, ao serem lapidados, refletiam com mais fulgor o brilho da glória de Deus.
Foi também esse poder que preparou Estêvão, o primeiro már¬tir do cristianismo, a morrer apedrejado sem mágoa no coração. Seus olhos não ficaram embaçados pela crueldade de seus algozes, mas ele viu Jesus na sua glória. Ele não praguejou invocando libelos condenatórios contra seus flageladores, antes intercedeu por eles. Não havia ódio no coração de Estêvão, mas poder para amar e perdoar.
Hoje, a igreja está precisando de poder para resolver muitas pendências na área dos relacionamentos. Há muitas pessoas feridas no arraial de Deus. Há pessoas profundamente machucadas e decep¬cionadas no relacionamento com seus irmãos. Há muitas mágoas não curadas. Há muitas feridas abertas. Há gente entupida de ressenti¬mento. Há muitos líderes evangélicos encharcados de mágoa, preci¬sando de cura. Há muitas famílias de pastores carregando traumas e decepções profundas pela maneira como foram tratadas na igreja de Deus. Há muitos crentes fracos e doentes por causa de atritos, brigas e contendas não resolvidas. Há pessoas na igreja que se comportam como Caim, trazendo ofertas ao altar de Deus, mas com o coração cheio de ira contra seus irmãos. Há crentes na igreja que se compor¬tam como Esaú, nutrindo sede de vingança no coração. Há outros que agem como Absalão, atentando contra a vida de seus próprios irmãos, porque nunca conseguiram perdoá-los. E ainda outros agem como Saul, lançando flechas contra os ungidos de Deus, pagando o bem com o mal, porque estão dominados por um espírito de perturbação. Onde não há amor, não há vida, pois quem odeia a seu irmão está nas trevas e nunca viu a Deus. Quem não ama a seu irmão não pode amar a Deus. Por isso, quem não perdoa não pode ser perdoado. Mas onde prevalece o amor, reina o perdão. O amor é um remédio infalível para curar as feridas da mágoa. O amor cobre multidão de pecados. Preci¬samos, portanto, de poder para amar. Precisamos do Pentecoste para perdoar!

Poder para falar de Cristo com intrepidez
No livro de Atos, sempre que os apóstolos e demais crentes eram cheios do Espírito, pregavam o Evangelho com intrepidez. Eles bus¬cavam poder não para impressionar as pessoas com milagres, mas Para pregar a Palavra com unção. Em Atos 1.8, eles receberiam poder para testemunhar. Em Atos 2.4,11, ao serem cheios, começaram a falar e falar das grandezas de Deus. Em Atos 2.14, ao ser cheio do Espírito, Pedro levantou-se para pregar, e seu poderoso sermão cristocêntrico produziu tamanho impacto na multidão que o ouvia, que quase 3 mil pessoas se converteram (At 2.41). Em Atos 4.8, Pedro novamente é cheio do Espírito e abre a boca para falar de Jesus às autoridades religiosas de Jerusalém. Em Atos 4.29-31, a igreja está orando pedindo intrepidez em face da perseguição; o local da reunião tremeu pelo poder de Deus, e todos ficaram cheios do Espírito e, com intrepidez, anunciavam a Palavra do Senhor. Atos 6.8-10 fala de Es¬têvão, o diácono cheio do Espírito (At 6.5), sendo revestido com ta¬manha capacitação de graça e poder, que os seus opositores não podi¬am sobrepor-se à sabedoria e ao Espírito com que ele falava. De im¬proviso ele pregou o sermão com a maior quantidade de citações bíblicas registrado nas Escrituras. Seus inimigos, cheios de ódio, o apedrejaram, mas não puderam emudecer o poder da sua pregação, que até hoje nos inspira e nos motiva. Atos 9.17-22 fala da cura e do batismo de Saulo de Tarso que, tão logo ficou cheio do Espírito, co¬meçou a pregar Jesus Cristo. Antes do Pentecoste, os apóstolos esta¬vam trancados por medo, depois ficaram presos por falta de medo, pois não podiam deixar de falar das coisas que viram e ouviram.
Sem poder não há pregação. Esse é o testemunho do apóstolo Paulo à igreja de Tessalônica: "Porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção..." (I Ts 1.5). De igual forma, o apóstolo fala à igreja de Corinto: "A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demons¬tração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus" (I Co 2.4-5). Quando Jesus ressuscitou dentre os mortos, passou 40 dias com os discípulos falando sobre o Reino de Deus, e o Reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder (I Co 4.20). Foi esse sentimento que levou Billy Graham, o maior evangelista deste século, a dizer: "Se Deus tirar a sua mão da minha vida, estes lábios se tornarão lábios de barro".
Depois de anos de trabalho missionário, John Wesley era ape¬nas um cristão nominal. Converteu-se em 24 de maio de 1738 num culto dos morávios na Aldersgate Street, em Londres. Nesse mesmo ano, desejou uma experiência mais profunda com Deus. No dia 1° de janeiro de 1738, ele, seu irmão Charles Wesley e George Whitefield, mais 60 irmãos, continuaram em oração até às três horas da madruga¬da. Quando o Espírito Santo foi derramado de forma poderosa, eles foram usados para sacudir a Inglaterra e tirar a igreja das cinzas. John Wesley viveu 52 anos depois desse revestimento de poder. A partir daquele dia, pregou para grandes multidões, nas minas de carvão, nas praças e em todos os lugares onde o povo se ajuntava para ouvi-lo. Morreu em 2 de março de 1791, mas sua vida e seu exemplo inspiram o povo de Deus até hoje.
Antes de sua ordenação, George Whitefield jejuou e orou por dois dias. No seu primeiro sermão, 15 pessoas foram podero-samente convencidas de pecado e convertidas. Este gigante da pre-gação ao ar livre pregou durante 35 anos, de três a cinco vezes por dia para auditórios de 2 mil a 20 mil pessoas. Muitas vezes, caval-gando pelas estradas empoeiradas da Inglaterra, montado em seu cavalo, era tomado por grandes comoções. As torrentes do céu caíam abundantemente sobre ele. O orvalho celestial molhava a sua alma com unção renovada. O poder do Espírito o inundava, e o povo afluía para ouvi-lo com sofreguidão onde quer que ele che-gasse.
Dwight Moody já havia sido usado grandemente em Chicago. Duas mulheres da Igreja Metodista Livre oravam fielmente por ele. No final do culto disseram-lhe: "Estamos orando por você". Intriga-do, ele respondeu: "Por que vocês não oram pelo povo?". Elas então o fitaram e disseram: "Porque o senhor precisa de poder". Dias de-pois, o Espírito Santo desceu sobre Moody com poder em Wall Street, New York. A essas alturas, Moody já estava pedindo a Deus todos os dias para que o enchesse de poder. Depois que Deus derramou seu Espírito e Moody experimentou essa efusão de poder, ele disse: "Eu não voltaria ao lugar em que estava há quatro anos, por todo o dinhei¬ro do mundo".
Mais do que nunca, estamos precisando de um Pentecoste Para revitalizar a pregação nos nossos púlpitos. Há púlpitos que estão dando não o pão do céu ao povo, mas um caldo venenoso e mortífero. Há pastores pregando outro evangelho, ensinando ao povo doutrinas de homens, mercadejando a Palavra e sonegando às almas o santo Evangelho de Cristo. Há outros púlpitos que são verdadeiras cátedras de erudição, mas anunciam ao povo apenas sabedoria humana. Alguns púlpitos têm-se transformado em bal-cões de negócio, onde pregadores inescrupulosos vendem e barga-nham as bênçãos de Deus e escondem do povo o Evangelho da graça. Há também púlpitos que pregam a sã doutrina, a ortodoxia bíblica, mas sem o óleo da unção. São púlpitos secos, cujas men-sagens são áridas. Os pregadores parecem postes doutrinários, ca-rentes da seiva da vida.
Se não houver unção no púlpito, haverá morte nos bancos. Sem pregação ungida, os mortos espirituais não ressuscitarão. Sermões sem unção alimentam a mente, mas não tocam o coração. Lançam luz à cabeça, mas não ateiam fogo ao coração. Não estamos necessitados de grandes homens no púlpito, mas precisamos de homens de Deus. Não estamos necessitados de grandes sermões, mas de mensagens cheias do azeite do Espírito. Não estamos precisando de erudição, mas de unção. Quando o Espírito é derramado, até mesmo homens rudes como os pescadores da Galiléia transtornam o mundo e atraem multidões aos pés de Jesus.
Hoje gastamos mais tempo preocupados em preparar a men-sagem, fazer pesquisas, ler comentários e buscar a exegese para os termos a partir das línguas originais. Tudo isso é muito importante. Mas não pode parar aí. Deus não unge estruturas literárias. Deus não unge simplesmente a mensagem, mas sobretudo o pregador. Jonathan Edwards pregou um tremendo sermão sobre o tema "Pe-cadores nas Mãos de um Deus Irado". Cerca de 500 pessoas sofre-ram tal impacto com a mensagem, que gemiam, choravam e grita-vam, agarradas aos bancos e pilares do templo, tomadas de profun¬da convicção do pecado. Esse mesmo sermão está impresso. Pode¬ríamos pregá-lo literalmente, e os resultados seriam bem outros. A unção não estava na mensagem, mas no mensageiro. O método de Deus é o homem. Deus unge homens, e não métodos. Precisamos, portanto, do poder do Espírito Santo para pregar a Palavra com po¬der e intrepidez.

Poder para ir até aos confins da terra (Atos 1.8)
Sem o poder do Espírito, a igreja perde a visão e a paixão. Sem o poder do Espírito, a igreja se encolhe e ensarilha as suas armas. Sem o poder do Espírito, a igreja se intimida e se esconde dentro de suas quatro paredes, pois é mais fácil ficar do que sair, é mais cômodo permanecer no ninho do que entrar em campo. Só o Pentecoste pode dar senso de urgência à igreja em relação à sua missão. Só o derrama¬mento do Espírito pode tirar os olhos da igreja de si mesma e erguê-los para ver os campos brancos para a ceifa. Só o poder do Espírito pode elastecer a visão da igreja quanto à visão missionária.
Quando é banhada pelo óleo do Espírito, a igreja passa a dar prioridade às missões como sua tarefa mais urgente. Veja três verda¬des fundamentais sobre este aspecto:
As missões são uma tarefa imperativa. Quando Oswald Smith iniciou o seu ministério na Igreja do Povo, em Toronto, Canadá, a igreja estava endividada e com a vida financeira abalada. Contrari-ando as expectativas da liderança da igreja, ele começou pregando uma série de mensagens sobre missões e sobre a necessidade de a igreja investir prioritariamente nesta tarefa de conseqüências eter-nas. No último dia das conferências, ele levantou uma grande oferta para missões e fez um desafio para que pessoas se levantassem na igreja como missionários. Deus fez uma revolução bendita na igre-ja. As finanças se aprumaram. A igreja cresceu extraordinariamen-te e a partir de então centenas de missionários foram sustentados por aquela igreja, que passou a investir 60% do seu orçamento na obra missionária. Estive visitando essa igreja no Canadá em agosto de 1998 e constatei que esta ênfase permanece até hoje. A Bíblia diz que quem ganha almas é sábio (Pv 11.30). Quem investe em missões entesoura para a eternidade. Quem ama missões, ora por missões, contribui com missões e faz missões está afinado com o pulsar do coração de Deus.
As missões devem ser a prioridade não só dos nossos investi-mentos, mas também da nossa própria vida. Quando perguntaram a Carlos Studd, que deixou a Inglaterra e abriu mão da sua fama e ri¬queza para ser missionário na China, índia e África, o porquê de tanto sacrifício, ele respondeu: "Se Jesus Cristo é Deus e deu a sua vida por mim, então não há sacrifício tão grande que eu não possa fazer por amor a ele". Quando o jovem presbiteriano Ashbel Green Simonton, recém-formado no Seminário de Princeton, New Jersey, filho de mé¬dico e deputado federal por duas legislaturas, sentiu o chamado de Deus para vir ao Brasil, foi aconselhado pelos amigos a desistir da arriscada empreitada. Muitas grandes igrejas nos Estados Unidos o queriam como pastor. Ele estava acostumado a uma vida de regalias. O Brasil era um país pobre e muito afetado por doenças endêmicas. Mas, a despeito de todos esses fatores, ele respondeu: "O lugar mais perigoso para um homem é totalmente seguro quando se está no cen¬tro da vontade de Deus". Ele veio, chegou ao Brasil no dia 12 de agosto de 1859. Durante oito anos realizou aqui um glorioso ministé¬rio; plantou a Igreja Presbiteriana do Brasil e partiu para a glória aos 34 anos, mas sua vida é até hoje fonte de inspiração para muitos obreiros. Sua vida ardeu no altar de Deus. Porque o seu ideal era maior do que a vida, ele deu a vida pelo seu ideal.
No século passado, Alexandre Duff deixou a Escócia e foi para índia. Ali gastou a sua vida. Ali derramou o seu coração. Ali fez sua alma arder por Deus numa profunda devoção à salvação dos perdi¬dos. Depois de velho e cansado, doente e com as forças estioladas, voltou a seu país para tratamento de saúde. Também realizou confe¬rências missionárias para despertar outras vocações que dessem pros¬seguimento ao seu trabalho. Certa feita, num grande auditório, falava a centenas de jovens. Pregou com grande ardor. Derramou seu cora¬ção num apelo veemente aos jovens, convocando-os a deixar a Escó¬cia e ir para a índia. Para sua surpresa, nenhum jovem atendeu ao apelo. Ele ficou tão chocado com a resposta negativa do auditório que teve um ataque cardíaco no púlpito e desmaiou. Levaram-no para uma sala contígua ao púlpito, massagearam-lhe o peito e ele voltou à consciência. Pediu, então, para o levarem de volta ao púlpito de modo que pudesse terminar o apelo. Os médicos responderam que ele não podia voltar ao púlpito. Mas ele retrucou: "Eu não posso deixar de voltar. Preciso terminar o apelo". Levaram-no então ao púlpito, e o auditório o ouviu atentamente. Mesmo com voz trêmula, ele se diri-giu à seleta audiência com estas palavras: "Jovens, se a rainha da Escócia convocasse vocês para qualquer missão diplomática, em qualquer lugar do mundo, vocês iriam com orgulho e sem detença. O Rei dos Reis, o Senhor dos Senhores, aquele que amou vocês e morreu por vocês na cruz, convoca-os para ir à índia como embaixadores do céu e vocês não querem ir. Então irei eu. Já estou velho, cansado e doente. Pouco poderei fazer, mas pelo menos morrei às margens do Ganges, e o povo indiano saberá que alguém os amou e se dispôs a ir até eles, levando a boa nova da salvação". Quando Alexandre Duff terminou o apelo, o auditório estava em prantos. O Espírito de Deus produziu grande quebrantamento naquela conspícua assembléia, e dezenas de jovens se levantaram atendendo ao desafio de ir para a índia.
As missões também são uma tarefa intransferível. Só a igre¬ja pode realizar missões. Essa tarefa, Deus não confiou aos anjos nem aos poderosos deste mundo. Nenhuma organização mundial, por mais opulenta e rica que seja, pode cumpri-la. A igreja é o método de Deus para alcançar todas as nações até os confins da terra. Devemos fazer missões por diversas razões. Primeiro, para livrar a nossa própria pele. Se nos calarmos, seremos tidos como culpados. Se o ímpio morrer na sua impiedade, sem ter sido avisado por nós, ele perecerá, mas o seu sangue será cobrado das nossas mãos. Segundo, para arrebatar os per¬didos do fogo. A ignorância não é uma porta secundária para entrar no céu. Quem sem lei pecar, sem lei perecerá. Não há salvação fora de Cristo. Deus resolveu salvar o pecador pela loucura da pregação. Mas como ouvirão se não há quem pregue? A fé vem pelo ouvir a Palavra, mas como crerão se não ouvirem? Os homens estão indo para a perdição eterna. Precisamos avisá-los do enorme e grave perigo que correm. Terceiro, porque fazer missões até os confins da terra é ordem expressa de Jesus Cristo. Não fazer missões é desobediência. Não obedecer a essa ordem de Jesus é rebeldia. Quarto, devemos fazer missões para a glória de Deus. Quando o pecador se arrepende e crê no Senhor Jesus, recebe a vida eterna, a graça de Deus é exaltada, e o Deus de toda a graça é glorificado.
Conta-se que, quando Jesus terminou sua obra de redenção no mundo, morrendo na cruz e ressuscitando dentre os mortos, voltou para a glória, sendo recebido apoteoticamente pelos anjos. Um anjo aproxi¬mou-se de Jesus e perguntou-lhe: "Senhor, tu morreste na cruz para a salvação dos pecadores. Mas quem vai levar essa mensagem ao mundo inteiro?". Jesus respondeu: "Eu deixei lá na terra doze homens prepa¬rados para esta missão". O anjo, então, arriscou uma segunda pergunta: "Mas, Senhor, e se eles falharem?". Jesus de pronto respondeu: "Se eles falharem, eu não tenho outro método". Essa missão é nossa. É intransferível. Por isso, precisamos do poder do Espírito para realizá-la.
As missões são uma tarefa impostergável. Não podemos omitir-nos nessa tarefa, pois seria uma atitude criminosa. Não pode¬mos protelar o que deve ser nossa missão mais urgente. A cada dia que passa, portas se fecham e outros atalhos aparecem para desviar as pessoas. Surgem a cada dia, em cada esquina, novas seitas pregando um falso evangelho, outro evangelho, fazendo os incautos enveredar pelas sendas do erro. Doutrinas satânicas estão ganhando espaço, con¬quistando terreno, invadindo as universidades, entrando na mídia bem na cara da igreja. Estamos assistindo nesse século à orientalização do ocidente. O espiritualismo com suas diversas faces está penetrando na cultura subjacente do nosso povo. Os terreiros de Umbanda cres¬cem como cogumelos em todos os quadrantes da nossa Pátria. As seitas heréticas conquistam terreno a cada dia. E o pior disso é que a igreja dorme, enquanto o inimigo semeia o seu joio maldito no meio do trigal de Deus. Precisamos acordar. Precisamos levantar os olhos. Precisamos ver os campos que estão brancos para a ceifa. Precisamos entender que a nossa comida e a nossa bebida é fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus é que levemos todo o Evangelho a toda criatura, a todas as nações, até os confins da terra.
A Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, comunidade que pastoreio há 14 anos, tem o privilégio de participar do sustento de um dos maiores missionários brasileiros. Ele está em Gana, na África. É um jovem culto, inteligente, fluente, de mente peregrina e alma cân¬dida. Deixou todo o conforto de sua Pátria e rumou para o sertão da África, embrenhou-se nas matas, cruzou rios e plantou seus pés na aldeia de Coni, entre a tribo dos Konkombas, feiticeiros históricos e fetichistas. Ali, na companhia de sua esposa, ele derramou sua alma em oração fervorosa por aquelas almas perdidas. Em cinco anos de trabalho, percorreu lugares nunca dantes alcançados, organizou 10 igrejas com cerca de 2 mil pessoas, arrancando-as das mais densas trevas do pecado. Mesmo sofrendo o abalo de 21 malárias, não per¬deu a paixão nem a visão. Ao ficar hospitalizado por um envenena¬mento de água, a missão que o enviou cogitou em trazê-lo de volta ao Brasil, definitivamente, argumentando que ele já havia dado sua ex¬traordinária contribuição. Mas a isso ele respondeu: "Eu não estou pensando em voltar, mas quero prosseguir adiante, mais um pouco, para alcançar outras tribos não alcançadas". De volta ao Brasil para tratar de uma tuberculose óssea, ele aspira consagrar sua vida para alcançar outros povos não alcançados.
Numa tribo indígena, um jovem se preparava para ser o caci-que. Era moço inteligente, ágil e com forte espírito de liderança. Seu corpo atlético e hercúleo faziam dele a esperança de toda a tribo. Entretanto, uma doença indomável e avassaladora estiolou as suas forças, minou o seu vigor e tirou o brilho dos seus olhos. Toda a tribo, aflita, buscou os recursos disponíveis para salvar a vida do futuro cacique. Mas foi tudo em vão. A doença não retrocedia. O jovem, então, com o corpo surrado pela doença, os olhos perdidos no infinito e a certeza da morte iminente, aproximou-se de sua velha mãe e per¬guntou-lhe: "Mamãe, para onde eu irei quando morrer? O que será da minha alma?". A mãe aflita respondeu: "Meu filho, eu não sei". Os dias se passaram, e o jovem, agora com o corpo macérrimo e olhar baço, já no colo da mãe, com a voz fraca, perguntou-lhe: "Mamãe, estou morrendo. Para onde vai a minha alma? O que será de mim quando eu morrer?". A mãe, chorando, apertou-o contra o seu peito e disse: "Meu filho, eu não sei, eu não sei". O jovem, não resistindo à enfermidade, morreu sem saber para onde ia. Meses depois, chegou àquela tribo um missionário pregando o Evangelho, falando sobre o céu, a vida eterna e a certeza da salvação. Enquanto o missionário pregava essas boas novas de salvação, saiu de uma palhoça uma mu¬lher idosa, com o rosto sulcado de dor e os olhos inchados de tanto chorar; ela correu em direção ao missionário, agarrou-o pelos braços, sacudiu-o violentamente e gritou: "Por que você não veio antes? Por que você não veio antes?". Era a mãe do jovem que morrera sem saber para onde ia. É muito frustrante chegar atrasado. É doloroso chegar tarde demais. Ou alcançamos a nossa geração para Jesus, ou então teremos fracassado em nossa missão. E por isso que precisa¬mos de poder, do poder do Espírito, para sair do nosso comodismo, para orar por missões, para contribuir com missões e para fazer mis¬sões aqui e além fronteira, antes que seja tarde demais.



Poder para experimentar o extraordinário no cotidiano (Atos 3.6)
Os apóstolos não agendavam os milagres. Não marcavam cul-tos de libertação e cura. Não havia previsibilidade antecipada. Não agiam como secretários do Espírito Santo, tentando controlar e mani¬pular a sua agenda. Eles não faziam propaganda dos sinais. Não colo¬cavam faixas anunciando a presença de homens poderosos. Não fazi¬am exposição de seus dotes espirituais. As coisas aconteciam dentro da liberdade e da soberania do Espírito. Eles não desviavam os olhos do povo para a igreja, nem não trombeteavam suas próprias virtudes. Enfeixavam todos os holofotes sobre Jesus.
Os apóstolos não comercializavam o poder. Eles não viviam encastelados em torres de marfim, empoleirados no topo da fama. Eles não barganhavam nem mercadejavam a Palavra. Não explora-vam o povo em nome da fé. Não extorquiam os neófitos usando de artifícios para vender seus produtos religiosos. Eles não forjavam milagres. Eles não trapaceavam. Eles não faziam alaridos para cha-mar a atenção para si mesmos.
Os apóstolos não usavam expedientes escusos para crescer. Não prometiam riquezas, prosperidade e saúde. Não faziam promessas ao povo de benesses terrenas e temporais, com vistas a atrair multidões. Eles não pregavam um evangelho fácil. Traziam no corpo os vergões dos açoites, a história das prisões e a privação financeira. O poder deles não era a opulência financeira. A influência deles não era a mobilização política. Eles eram homens revestidos com o poder do Espírito. Por isso, Pedro pôde dizer ao paralítico: "Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!" (At 3.6). O primeiro milagre foi levantar o que estava prostrado. O Espírito Santo desceu para levantar o homem caído.
Precisamos de poder para ter ordinariamente uma vida extraor¬dinária. Quem vive no reino da fé pisa no terreno dos milagres. Não precisamos nos arrastar com os pés na lama; podemos alçar vôos altaneiros e viver na intimidade de Deus. Não precisamos viver de for¬ma medíocre; podemos experimentar as insondáveis riquezas do Evan¬gelho de Cristo. Não precisamos viver uma vida árida; podemos ter sobre nós o orvalho do céu, as torrentes do Espírito. Não precisamos viver uma vida vazia; podemos ser cheios do Espírito. Não precisa¬mos viver debilitados e fracos; temos à nossa disposição a suprema grandeza do poder de Deus. É tempo de buscar essa qualidade superlativa de vida. É tempo de apropriar-nos da vida abundante que Cris¬to oferece. É tempo de beber dessa fonte que nunca seca. Chegou a hora de experimentar o fluir dos rios de água viva jorrando do nosso interior. Podemos entrar nas águas profundas desse rio. Sim, o que Deus tem para nós aqui é o extraordinário no cotidiano e além do rio, o que nenhum olho viu e nenhum ouvido ouviu nem jamais subiu ao coração do homem.